O material publicado neste blog é resultado dos trabalhos desenvolvidos na disciplina História da Arquitetura e do Urbanismo no Brasil, do Curso de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Tocantins. Os temas dos artigos resultaram da Visita técnica realizada à cidade de Belém do Pará, nos dias 6 e 7 de dezembro de 2013, coordenada pela professora Patrícia Orfila, responsável pela disciplina.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Belém/PA: Diversidade e vitalidade urbana

Belém/PA: Diversidade e vitalidade urbana

            Grendha Tavares D’Almeida[1]

Este trabalho pretende apresentar as percepções acerca da vitalidade e diversidade da paisagem urbana da cidade de Belém capital do Pará considerando o bairro Campina (Comércio) e seus edifícios antigos, bem como fazer um contraponto com a capital tocantinense, Palmas.
Cidades como Belém, no Pará, fundada há quase 400 anos, apresentam uma configuração urbana bastante peculiar, em que o contemporâneo e o antigo passeiam juntos, trazendo várias perspectivas e olhares distintos.  
A herança arquitetônica deixada pelo período colonial e principalmente pela “Belle Époque”, período compreendido entre o fim do século XIX e início do século XX, em decorrência da riqueza originada pela economia da borracha, ainda é muito presente na capital paraense. Os casarões, palacetes, praças, igrejas, monumentos, entre outros, construídos nessa época, ainda participam como protagonistas do cenário urbano.
A região de maior concentração comercial da cidade, conhecida como “ Comércio” localizado no bairro Campina possui inúmeros exemplares de edifícios desse período. O bairro abriga várias referências culturais da cidade, como a Praça da República, o Teatro da Paz, o Bar do Parque, a avenida presidente Vargas repleta de edifícios comerciais, hotéis, bancos como o da Amazônia,  do estado do Pará, do Brasil e Banco Central, além da agência central dos correios, entre outros.
Apesar de todo o tráfego hoje existente e de novas construções, os edifícios antigos se destacam na paisagem urbana. Na grande concentração comercial na região, há espaço para edifícios residenciais, sendo que inúmeros imóveis são utilizados como comércio no pavimento térreo e residencial nos pavimentos superiores. Essa configuração em que elementos distintos compõem a paisagem submete o observador a uma grata experiência em que não há monotonia, pois contém diversidade.

As cidades precisam tanto de prédios antigos, que talvez seja impossível obter ruas e distritos vivos sem eles. Ao falar em prédios antigos, refiro-me não aos edifícios que sejam peças de museu, nem aos prédios antigos que passaram por reformas excelentes e dispendiosas – embora esses sejam ótimos ingredientes -, mas a boa porção de prédios antigos simples, comuns, de baixo valor, incluindo alguns prédios antigos deteriorados. (JACOBS, 2000, p. 207).

Em Belém, a diversidade proporciona vitalidade à cidade. Edifícios de diferentes estilos e épocas oferecem nuances, cores, texturas distintas à conjuntura urbana.
            Jane Jacobs (2000), em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades,  estabelece o que seriam condições para a diversidade urbana e consequentemente à vitalidade, entre elas estariam a necessidade de prédios antigos.                  
            Andar a pé pelo centro da capital paraense se revela uma grande aventura pela história, apesar de uma constante poluição visual pela presença de diversas barraquinhas de camelôs e ambulantes pelas calçadas. É possível encontrar desde prédios recuperados, revitalizados, a imóveis que perderam seu valor econômico e cultural  devido ao desgaste do tempo e também pelo desinteresse do poder público.  Em 2011, o IPHAN, tombou vários elementos históricos, arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos, localizados nos bairros da Cidade Velha e Campina. Antes desta decisão, o centro histórico de Belém possuía apenas 23 bens tombados em nível federal, com cerca de 800 imóveis protegidos. Com essa medida, 2,8 mil edificações passaram a estar sob a proteção do governo federal. O Departamento de Patrimônio, Histórico e Cultural do Estado (Dphac) e a própria prefeitura da cidade, através do Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), também atuam no sentido de proteger tais imóveis. Apesar disso, há inúmeros imóveis em verdadeira ruína.
                                        Foto 1 – Rua do bairro Campina (Comércio), Belém/PA . FONTE: skyscrapercity.com

 Para Jacobs (2000), o distrito deve ter uma boa variação de edifícios com idades diferentes com uma boa porcentagem de prédios antigos e esta mistura deve ser bem compacta, estimulando o contato entre as pessoas e fazendo crescer pequenos empreendimentos urbanos;

As combinações de prédios antigos, e as consequentes combinações de custos de vida e de gostos, são essenciais para obter diversidade e estabilidade nas áreas residenciais, assim como a diversidade de empresas. (JACOBS, 2000, p. 215).

                                        O jornal Diário do Pará noticiou em uma reportagem de 14/04/2011, uma tendência de ocupação de uso residencial no centro comercial.  O pouco uso residencial, a localização central e o fascínio pelo caráter histórico têm feito com que cada vez mais, artistas, acadêmicos, fotógrafos, ocupem o bairro, tornando-o mais humano. Os casarões ganham assim novos usos, estúdios de fotografia, teatro, espaço para ensaio de banda, etc. 

                                    Uma das coisas mais admiráveis e agradáveis que poder ser vistas ao longo das calçadas das grandes cidades são as engenhosas adaptações de velhos espaços para novos usos. A sala de estar do casarão que se transforma em sala de exposições do artesão, o estabulo que se transforma em casa, o porão que se transforma em associação de imigrantes, a garagem ou a cervejaria que se transformam em teatro, o salão de beleza que se transforma em primeiro andar de um dúplex, o armazém que se transforma em fábrica de comida chinesa, a escola de dança que se transforma em gráfica, a sapataria que se transforma em igreja com vidraças pintadas com esmero ( os vitrais dos pobres), o açougue que se transforma em restaurante – são desse tipo as pequenas transformações que estão sempre ocorrendo nos distritos em que há vitalidade e que atendem às necessidades humanas. (JACOBS, 2000, p. 215).

Uma pesquisa feita pela pesquisadora Ana Priscila Correa da Silva, em 2003, para avaliar a qualidade de vida no centro histórico de Belém, incluindo o Comércio, a partir da avaliação de moradores da área concluiu que as pessoas estão satisfeitas, embora apresentem ressalvas relacionadas à segurança e preservação do patrimônio histórico.


Podemos concluir dentro da proposta de avaliar a qualidade de vida no Centro Histórico de Belém, a partir das expectativas de seus moradores, que a mesma é muito boa. A população residente está bastante satisfeita de morar na área, avaliando o local como tranqüilo e bem localizado. Essa localização se dá pelo fato de no CHB existir um grande pólo de atividades comerciais e de serviço, então além de estarem bem servidos dessas atividades, os moradores também têm acesso aos transportes públicos urbanos.
Porém a mesma característica marcante do CHB de ter uma área comercial e de serviço em potencial, que trazem referenciais de satisfação, faz também apontar para o principal motivo de insatisfação dos moradores: a insegurança. Pois, a ausência do uso residencial propicia uma certa marginalização e falta de segurança pública na área.
                                    Os resultados apontam para a necessidade de uma política de ordenação do espaço através da legislação urbanística, legislação de Patrimônio Histórico e de incentivos ao setor habitacional. Neste sentido, a utilização de estratégias de articulação com os poderes públicos, otimizando recursos para uma produção habitacional poderia trazer o uso residencial para a área, juntamente com a segurança que os moradores tanto almejam, principalmente no bairro da Campina, onde o uso comercial e de serviço é predominante. (SILVA, 2003, p. 10).

            Por outro lado, em Palmas, no estado do Tocantins, a mais nova capital brasileira, cidade planejada, fundada em 1989, com características modernistas, percebe-se que a paisagem urbana se apresenta repetitiva, sem surpresas e monótona. A jovem cidade não conta com um centro histórico, há apenas alguns poucos edifícios pela cidade, representantes da época de sua fundação.

Trechos extensos construídos ao mesmo tempo são por si só próprio incapazes de abrigar um espectro amplo de diversidade cultural, populacional e de negócios. (JACOBS, 2000, p. 211)


No centro comercial, construções em geral utilizam uma mesma linguagem. A maioria dos prédios possui apenas um ou dois pavimentos, seguindo o mesmo padrão arquitetônico. São verdadeiros “edifícios caixotes” que se multiplicam.

                                   Foto 2 – Comércio na Avenida JK, Palmas/TO . FONTE: FECOMÉRCIO

Quando se transita pelas avenidas circundantes às quadras residenciais, a monotonia se acentua. O que mais se vê são os muros das residências. Devido à configuração dessas quadras, as construções são voltadas ao interior das mesmas. Assim, como em um condomínio fechado, as quadras se isolam do restante da cidade. Poucas quadras residenciais tem algum tipo de comércio, normalmente de pequeno porte, como padarias e mercearias, apenas.

Sendo assim, o planejamento e a forma de ocupação da cidade, provocaram grandes vazios urbanos, criando distâncias difíceis de serem vencidas a pé. O próprio deslocamento entre um ponto comercial e outro, não é tarefa fácil para o pedestre. Assim, separadas as funções e usos, a cidade se apresenta pouco convidativa, atraente, tudo muito semelhante. Não há o despertar da curiosidade, da surpresa. 


Dessa forma, considerando os elementos presentes atualmente e a pouca idade da capital Tocantinense é questionável a maneira como a cidade de Palmas estará com o passar dos anos. Será possível apresentar-se atraente e convidativa tal qual Belém? A harmoniosa relação entre o novo e o antigo é presente na capital paraense e fruto da preservação da história e da sua própria regeneração.      





REFERÊNCIAS



IPHAN. Disponível em:


JACOBS, Jane. Morte e Vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.


MACHADO, Ismael. Investir bem: Imóveis. Diário do Pará, Belém, p.18, 14 abril 2011.


SILVA, Ana Priscila Correa da. Qualidade de vida no Centro Histórico de Belém a partir de seus moradores. Disponível em: < http://www.nead.unama.br/site/bibdigital/pdf%5Cartigos_revistas%5C99.pdf > Acesso em 28 de janeiro de 2014.


Foto 1- Disponível em: <http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=558704> Acesso em 25 de janeiro de 2014.


Foto 2 - Disponível em: <http://www.fecomercioto.com.br/index.php?option=noticias&sub=detalhes&id=1406#.Uu7pvfldXZ4> Acesso em 25 de janeiro de 2014.





[1] Aluna matriculada na disciplina de História da Arquitetura e Urbanismo no Brasil, no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Tocantins (UFT).

Preservação das Mangueiras de Belém, um Patrimônio Histórico e Ambiental


                                                                      Mayana Amaral Monteiro¹



Mangueiras de Belém


Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
O rio se curva e te oferta
um branco buquê de espuma.
A noite deita nos becos
e a cuia da lua derrama.
Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
Ruas de anjos com asas
de verde beleza arcana.
Ai! Mangueiras da Cidade,
que o sol esculpiu na sombra,
por vós o poeta implora,
por vós a poesia clama…
Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
Por que vagam na cidade
assassinos de mangueiras,
matando-as por querer
ou matando de encomenda,
matando à sombra da lei,
essa lei sem lei, sem lenda?
Essa triste lei da morte
que tem na morte sua vida.
Não deixem que passe impune
esse crime, essa desdita.
Fotografem, multipliquem
vosso “não” pela internet,
pelos blogs, no youtube,
nos orkuts, nos e-mails,
nas asas dos passarinhos
que estão perdendo seus ninhos,
no peito dos que se amam,
nos muros e nos caminhos…
Quem pode lavar a mão
olhando esse arvorecido?
Que frutos hão de brotar
nos galhos da solidão?
Que é feito do coração
desses que sem piedade
arrancam pela raiz
as raízes seculares
da alma desta cidade?
Ai! Mangueiras de Belém!
Anjos de verde folhagem,
que fazem sombra com as asas
mas são em poste enforcadas.
Verdes berlindas de mangas
no Círio de cada dia.
Campanários de andorinhas
nos corais da ave-maria.
Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
Tua leve melancolia
presa em gaiolas de chuva.
Teu dia, garanhão de auroras
tua noite sempre viúva…
Belém, donzela das águas,
no rio do verso encantada.
Oh! Barca de verdes velas,
no Ver-o-Peso aportada.

Fonte: Poesia João de Jesus Paes Loureiro




Fonte: Mayana Amaral Monteiro/2013

Esse artigo proposto pela professora de arquitetura e urbanismo, Patrícia Orfila, tem como finalidade ampliar os conhecimento da turma de História da Arquitetura e Urbanismo no Brasil, sobre Belém do Pará, uma cidade localizada no norte do Brasil, região amazônica e que possui uma cultura rica cheia de histórias, monumentos e atrativos turísticos. A sua iniciativa nos oportunizou  visitar e conhecer essa bela cidade, dando-nos a opção de escolha do tema a ser abordado.
Belém foi fundada pelos portugueses em 12 de janeiro de 1616, quando uma expedição chefiada por Francisco Caldeira Castelo Branco chegou a ela, partindo do Maranhão pelos braços do rio Amazonas. E somente 39 anos depois foi elevada à categoria de cidade, primeiro com o nome "Nossa Senhora de Belém", depois "Santa Maria de Belém do Grão Pará" e, por fim, Belém. (DI PAOLO, 2006)
Com Flora e fauna rica, típica da região amazônica, Belém também possui um clima bem peculiar. Quente e úmido, e com chuvas que cai por um curto período quase todos os dias do ano, no final das tardes. A temperatura mínima é de cerca de 30°C e a máxima chega a 42°C, especialmente entre julho e novembro. A umidade relativa do ar está sempre em torno de 98%.

Fonte: Mayana Amaral Monteiro/2013

Como é agradável quando andar a pé pelas calçadas do centro de Belém, mesmo com um clima equatorial, as sombras das mangueiras fazem um bloqueio que nos protege da insolação e do calor.
As mangueiras de Belém são consideradas patrimônio histórico, segundo a Lei de Patrimônio Histórico, n° 7.709, de 18 de maio de 1994 no Capítulo VII, Art.52.

As mangueiras e sumaumeiras (Mangífera índice e Ceiba Sumahuma respectivamente) existentes nos logradouros públicos do Município de Belém, integram o patrimônio histórico e ambiental da cidade. (IPHAN)

Na lei, as mangueiras já estão protegidas, mas não depende só dela para que o desenvolvimento dessas árvores siga adiante. O governo e a sociedade também devem contribuir para a preservação desse patrimônio. E é sobre as mangueiras que esse artigo tratará.


Fonte: Mayana Amaral Monteiro/2013



Fonte: Mayana Amaral Monteiro/2013


Acredita- se que essa esse patrimônio foi uma das maiores políticas de arborização na Amazônia, feita pelo intendente Antônio Lemos, no início do século XX. Foram espalhadas dezenas de mangueiras pelo centro urbano da cidade, cujas mudas foram trazidas do sul da Ásia, com a intenção de purificar o ar e, principalmente, diminuir o impacto climático tropical aos habitantes de Belém. Infelizmente ele não pode vê-las em estágio adulto, atualmente a arborização recobre 30% da cidade.

Antonio lemes está na memória do povo paraense, como o maior administrador municipal. Um homem com as raízes no Estado do Maranhão, mas que chegou à capital paraense, ainda naquela época Santa Maria de Belém do Grão-Pará, como soldado da Marinha do Brasil. Começou a vida política no então Partido Republicano, no qual também exerceu o cargo de secretário. Antônio José Lemos é detentor do título de mais poderoso e recorrente mito político da Amazônia. Segundo a professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Maria de Nazaré, foi ele quem idealizou, e começou a pôr em prática, o projeto de uma Belém com tons e ares europeus. (MONTENEGRO, 2010)

            Em uma parte do livro em que escreveu, Lemos elogia o diretor dos parques e jardins da época, o senhor Eduardo Hass, e ainda descreve algumas praças e parques construídos em sua gestão.
                                               Não me deterei de a repetir descripções das formosíssimas praças da Capital paraense, dignas de nosso progressos encanto de seus visitantes, refrigério de que quem as busca, mesmo às horas mais cálidas do dia. (...) Salientarei apenas que o notável desenvolvimento da arborização, no período de doze meses, imprimiu aos nossos futuros parques urbano um aspecto lindíssimo, promissor das grandes belezas que apresentarão em futuro bem próximo. (LEMOS, relatório de 1906 – p.195)
                                               Ainda cita as mangueiras como fora o tratamento com as mangueiras
                                               Todas as mangueiras circulares foram regadas com guano liquido, dando este adubo os melhores resultados. (LEMOS, relatório de 1906 – p.196)


Os parques e praças de Belém
Fonte: LEMOS. O Município de Belém


                                               Belém, 'Cidade das Mangueiras', tem cerca de 12 mil árvores que dão o título à capital paraense, como aponta a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma). Porém, muitas dessas árvores não estão em bom estado, a começar pelas raízes comprometidas pelo asfalto, concreto, tubulações e cabos subterrâneos. Do alto dos prédios dos bairros mais arborizados  é possível ver que as copas estão tomadas por erva de passarinho. Por serem vegetais de grande porte, que passam dos oito metros de altura, o cuidado preciso ser constante. Especialistas acreditam que se forem mais bem cuidadas, as árvores que começaram a ser plantadas no século XVIII por Antônio Lemos para produzir sombra, podem durar muitos anos mais e a cidade jamais perderá o título. A população, que não vive sem os frutos que caem pelas ruas e calçadas (e sem o risco que uma manga cadente representa para carros e cabeças) também pede que todas as mangueiras sejam bem cuidadas se for para dar um presente a Belém. Uma de 80 anos foi perdida na última quarta-feira, 9, por conta de um vazamento na tubulação de água causado pelas raízes do vegetal. Uma remoção foi necessária. (FURTADO, 2013)
Mas há controversas, do começo do plantio das mangueiras. Como explica o doutor em História Social Urbana Fabiano Homobono, professor da Universidade Federal do Pará.”Muito antes, ainda no século XVIII, Landi já fazia experimentos com a implantação de mangueiras e o título já começou a ser usado desde a primeira leva plantada. E esse nome foi dado por viajantes e cientistas que passavam por onde hoje é a avenida Nazaré e viam todas as mangueiras. Lemos apenas expandiu”, disse. Homobono observa que hoje arquitetos e paisagistas não usam mais essas árvores por serem muito perigosas. Primeiro pelo tamanho que alcança, pois algumas espécies podem chegar a 40 metros (as espécies usadas em Belém chegam em média a oito metros). Os frutos caem dessas alturas e se tornam um risco. As raízes se expandem muito e danificam calçadas. 'Porém nada disso se pensava naquela época. Infelizmente, hoje perdemos muitas porque caíram com o vento ou foram removidas por apresentarem risco de queda. O calçamento hoje é inadequado para elas. Por isso nossas mangueiras precisam ser cuidadas. É nosso patrimônio e o turismo tem esse foco da Cidade das Mangueiras', ressaltou. (FURTADO, 2013)

No livro O Problema da queda Acidental das Mangueiras, dos engenheiros agrônomos Batista Benito e Vicente Haroldo, de 1969 que já abordava o assunto como uma preocupante situação.
                                               Em sua expressão mais simples, o problema se resume em decidir se as quedas verificadas foram  efeitos de causas isoladas, devida as circunstâncias particulares, ou se um fenômeno generalizado, cuja tendência seria a de agravar se com o decorrer do tempo e nesse caso como conseqüência da senilidade em função da idade das árvores. (BENITO; HAROLDO,1969, p. 5)

Já foram feitos vários estudos sobre as mangueiras, a maneira de crescimento, o local apropriado e o tamanho influenciam na continuidade de plantio dessas árvores. E foi constatado que o envelhecimento delas as compromete e as tornam mais frágeis.

                                                Nestas condições, tudo leva a concluir que  o problema das quedas acidentais tenderá a agravar se no decorrer dos anos. (BENITO; HAROLDO,1969, p. 17)


Fonte: BENITO;VICENTE. O problema da queda acidental de mangueiras em Belém

Conclui se que, as mangueiras oferecem vantagens e desvantagens, independente de quem as trouxe, elas nos protegem do sol e ainda dão alimento as pessoas e animais porem sua manutenção é muito trabalhosa e às vezes ocorrem alguns acidentes. Para que isso seja amenizado, existem diversos grupos que estão com projetos de preservação e manutenção das mangueiras juntamente com o poder público e os moradores da cidade, essas famosas mangueiras poderão levar suas histórias por muito mais séculos.


UFPA Fonte: Mayana Amaral Monteiro/2013



REFERÊNCIAS


BENITO,Batista ; VICENTE,Haroldo. O problema da queda acidental de mangueiras em Belém. Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuárias do Norte, 1969. Disponível em: <http://ufpadoispontozero.wordpress.com/2013/11/11/o-problema-da-queda-acidental-de-mangueiras-em-belem/>. Acesso em: 27/01/2014.
DI PAOLO, Darcy Flexa. Belém Cidade das Mangueiras. Cortez Editora, 2006. Disponível em: <http://educampoparaense.org/site/media/biblioteca/pdf/Belem%20_%20Cidade%20das%20Mangueiras.pdf>. Acesso em: 27/01/2014.
FURTADO, Victor. Belém, eterna Cidade das Mangueiras. Fonte Jornal Liberal- atualidades 12-01-13. Disponível em: <http://www.orm.com.br/projetos/oliberal/interna/?modulo=247&codigo=626133>. Acesso em: 27/01/2014.
IPHAN. Lei de patrimônio histórico, n° 7.709, de 18 de maio de 1994 Disponível em: < http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=205>. Acesso em: 27/01/2014.

LEMOS, Antônio. O Município de Belém. Arquivo da Intendência Municipal, 1907. Disponível em: < http://ufpadoispontozero.wordpress.com/2013/10/02/o-municipio-de-belem-relatorio-de-antonio-lemos-1907/>. Acesso em: 27/01/2014.
LEMOS, Antônio. O Município de Belém. Arquivo da Intendência Municipal, 1907. Disponível em: < http://ufpadoispontozero.wordpress.com/2013/10/02/o-municipio-de-belem-relatorio-de-antonio-lemos-1907/>. Acesso em: 27/01/2014.
MONTENEGRO, Will. Antonio Lemos deu um passo ao futuro. Fonte Amazônia Jornal. Disponível em: <http://www.ufpa.br/historia/index.php?option=com_content&view=article&id=30:antonio-lemos-deu-um-passo-ao-futuro-b>. Acesso em: 27/01/2014

[1] Acadêmica matriculada no 5° período do Curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Tocantins, e que está cursando a disciplina de História da Arquitetura e Urbanismo no Brasil.

Estação das Docas: Intervenções em Áreas Portuárias Brasileiras


Júlio César Mota de Negreiros[1]

Resumo
Este trabalho tem como objetivo mostrar intervenções urbanas em zonas portuárias brasileiras, destacando a intervenção feita na em Belém do Pará, fazendo alguns comparativos com outras experiências internacionais.  O estudo realizado, foi feito através de visita de campo no segundo semestre de 2013 por acadêmicos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

Abandono de Áreas Portuárias
Segundo (VARGAS, 2006) as áreas portuárias tiveram suas funções reduzidas a medida que os meios de produção de modernizaram, bem como sua tecnologia dos portos logística de transporte e armazenamento de carga.
No caso do porto de Belém ainda existiu a crise financeira com ciclo da borracha em meados de 1930 (PONTE, 2007). Onde os galpões de ferro inglês criado no início do século XX encontravam em degradação devido o processo de estagnação sócio econômica, esses espaços passaram a ter ausência de pessoas causando insegurança e aspectos de abandono.

Estação das Docas
Criada a partir da restauração do porto de Belém, a estação das docas é considerada a primeira janela para a baía do Guajará. (LIMA e TEIXEIRA 2006), o complexo começou a ser elaborado em 1992 através de concurso de projetos para a reutilização de armazéns na área portuária, projeto esse cancelado. Esse projeto passou a ser obra de uma série de projeto de valorização do patrimônio histórico edificado.
“A intenção era alavancar a atividade turística em toda a região, tendo a antiga áreas portuária como ícone da retomada do crescimento econômico do estado do estado” (LIMA e TEIXEIRA, 2006)
O Projeto de revitalização foi retomado em 1997 com o objetivo de recuperar uma área de aproximadamente 32 mil metros quadrados e 500 metros de orla, o espaço foi arrendado ao Governo Estadual pela CDP (Companhia Docas do Pará) o convênio foi feito por um período de 25 anos. O custo inicial da obra foi estimado em 18 milhões de reais, diferentemente do valor final que chegou a 25 milhões onde 19 milhões foram financiados pelo governo estadual e o restante, cerca de 6 milhões de reais, foi desembolsado pelos empresários na exploração comercial, basicamente com despesas para instalações complementares ao funcionamento dos restaurantes e lojas (Revista Ver-o-Pará, 2003, n° 25, pp.48).
“Seguindo o exemplo de grandes centros como Nova York e Buenos Aires, Belém chega ao século 21 provando que é possível restaurar centros históricos sem aprisionar -se às glórias do passado” (Paulo Chaves Fernandes, apud. Governo do Pará, 2003)
Inaugurado em maio de 2000 o complexo fica localizado na Av. Boulevard, no centro histórico da cidade, a Estação das Docas é sem dúvida um dos maiores atrativos da cidade de Belém, o projeto que teve como objetivo revitalização de três galpões de ferro construídos no iniciado século XX, com suas “janelas abertas” para a Baía do Guajará, tem como autores o arquiteto Paulo Chaves e Rosário Lima, os autores defenderam a adaptação histórica com redução nas intervenções (CAMPOS, RODRIGUES, 2010).
Após o processo de revitalização a gestão foi entregue a uma entidade sem fins lucrativos: “Organização Social Pará 2000”, constituída com base na lei 5.690/96 e regulamentada pelo decreto 3.876/00, composta pela Secretaria Executiva de Cultura e por diversos segmentos da sociedade.
O complexo revitalizado e colocado à disposição da sociedade com os seguintes usos (site estação das docas):

Galpão 1 - Boulevard das Artes
Encontra-se a exposição permanente denominada "Memória do Porto", com fotografias e objetos seculares, uma cervejaria e barracas artesanais, quiosques de comidas regionais, cafeteria, bares e lojas de serviços.
Galpão 2 - Boulevard da Gastronomia
Espaço destinado a gastronomia regional com comidas típicas que valorizando a culinária local.
Galpão 3 - Boulevard das Feiras e Exposições
Destinado também a convenções, seminários, congressos e outros eventos ligados ao turismo de negócios, com o apoio do teatro-cinema Maria Sylvia Nunes, que tem capacidade para 426 pessoas.
Galpão 4 antigo Mosqueiro-Soure – continua a operar um terminal fluvial de embarque e desembarque de passageiros, reconstruído sobre o flutuante Amazon River.

DRAGÃO DO MAR
De acordo com o XII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL, que aconteceu em 2007 em Belém, podemos citar outros panoramas de projeto de intervenções de zonas portuárias no Brasil. Onde mostra o caso “Dragão do Mar” em Fortaleza que retrata os mesmo motivos de apropriação do Governo do Estado de uma zona esquecida e abandonada para impulso econômico e estimulo ao turismo.
“Complexo formado por edificações interligadas por passarelas, situado entre o velho cais da Praia de Iracema e o centro antigo de Fortaleza. Construído pelo Governo do Estado, abriga salas de exposição, oficinas de arte, café, loja, salas de aula, planetário, auditório, anfiteatro, salas de teatro e cinema e o Museu de Arte Contemporânea do Ceará.” XII Encontro.

RIO DE JANEIRO E RECIFE
No Rio de Janeiro os projetos de intervenção em zonas portuárias teve início com “A aprovação da Lei de Modernização dos Portos (Lei Nº 8.630, de 25/02/93), ao permitir o arrendamento das instalações portuárias dando novo impulso à revitalização da região” (Rose Compans). A zona portuária do Rio de Janeiro há pelo menos duas décadas tem sido objeto de propostas, as mesmas só começaram ser colocadas em prática com a vinda de eventos esportivos (Panamericano, Copa e Olimpidas), os investimentos a serem feitos estima um valor de aproximadamente 3 bilhões de reais, numa áreas de pouco mais de 3.177.000 m², e serão financiado pelo governo e iniciativa privada (Rose Compans).
O Plano de Revitalização e Reestruturação da Zona Portuária engloba: reestruturação do sistema viário; implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e sistema ciclo viário; recuperação de imóveis preservados; construção de equipamentos culturais e de lazer; alteração da legislação para incentivar o uso habitacional e de serviços; criação de linhas de microcrédito para estimular a economia local.
Já em recife os projeto teve o início em 2012 com então govenador do estado onde na ocasião anunciou a revitalização de cerca de 1,5 km do porto de Recife-PE, a intervenção tem como objetivo restaurar nove armazéns na antiga zona portuária da cidade. O projeto servirá como parâmetro para a criação do Porto de Recife: O Porto Novo do Recife, como será chamado, prevê a reforma a de nove antigos armazéns onde serão desenvolvidos os mais variados tipos de serviços e atividades. A ideia é que parte do investimento para realização do projeto denominanado Porto Novo, de dois dos armazéns que abrigarão o Centro de Artes anato de Pernambuco e Cais do Sertão Luiz Gonzaga, venha dos cofres dos governos Estadual e Federal, e o restante, sete antigos galpões, serão arrendados para iniciativa privada.  Ao todo, estão sendo investidos pouco mais de 27 milhões na obra.
O projeto “Estação das Docas” serviu de referência para o projeto de revitalização do porto de Recife, o projeto tem como autoria o mesmo arquiteto idealizador do projeto de intervenção em Belém. O Arquiteto Paulo Chaves, a obra é uns dos projetos que deverão estar prontos até a copa de 2014.

BIBLIOGRAFIA
PONTE, Juliano Pampola Ximenes (2007). Cidade e água: Belém do Pará e estratégias de reapropriação das margens fluviais. Em Arquitextos 085.02. p.1-1
VARGAS, Heliana, Comim e CASTILHO, Intervenções em centros Urbanos: Objetivos, Estratégias, e Resultado. Barueri: Manole, 2006
LIMA, José; TEIXEIRA, Luciana, Janelas para o rio: Projeto de intervenção na orla urbana de Belém, Barueri: Manole, 2006
COMPANS, Rose. Intervenções de recuperação de zonas urbanas centrais: experiências nacionais e internacionais
CAMPOS, Bárbara Fortes, RODRIGUES, Ísis Meireles. Teresina:UFPI, 2010
SITES:



[1] Aluno matriculado de História da Arquitetura e Urbanismo no Brasil, curso de Arquitetura e Urbanismo da UFT.

Revitalização da Igreja de Santo Alexandre (Museu de Arte Sacra do Pará) Por Loíse Corrêa Alencar

Revitalização da Igreja de Santo Alexandre (Museu de Arte Sacra do Pará)

Loíse Corrêa Alencar*

A Igreja de Santo Alexandre foi sede do Colégio e da Companhia de Jesus na época do Brasil colônia. Começou a ser construída por volta de 1698 e foi concluída em 1719. O colégio foi dedicado a Santo Alexandre de Bergamo por abrigar relíquias do santo doadas pelo Papa Urbano VIII, mas anteriormente foi dedicada a São Francisco Xavier. Em 1759, os jesuítas foram expulsos e o colégio foi reformado e passou a ser usado como palácio dos bispos da cidade, foi o local de hospedagem do Papa João Paulo II, quando este visitou Belém em 1980.
A igreja foi construída com mão-de-obra indígena empregada pelos jesuítas. Os próprios púlpitos e obras que ornamentam a igreja são atribuídos ao padre austríaco João Xavier Traer, que dirigiu a oficina de escultura do colégio durante as primeiras décadas do século XIII e ensinou a técnica aos indígenas.
Segundo Ramiro Quaresma, a igreja possui estilo arquitetônico geral correspondente ao maneirismo, favorecido pelos padres jesuítas portugueses, e é um dos templos mais importantes erguido pelos padres da Companhia do Brasil. Pode-se perceber, inclusive, a semelhança com a Igreja Jesuíta de Salvador, atual Catedral Basílica Primacial de São Salvador, construída entre 1652 e 1672. As duas são importantes monumentos barrocos dos centros históricos de Belém e Salvador, respectivamente. No entanto, a igreja de Belém foi construída com menor rigor técnico, provavelmente devido à mão-de-obra de caráter indígena empregada pelos jesuítas.
Além do edifício principal, correspondente à igreja, no decorrer do século XVIII, o edifício do Colégio foi construído anexado a primeira. Quanto às características arquitetônicas, a igreja possui uma monumental fachada com quatro andares de altura. O frontão da parte superior da fachada é formado por duas grandes volutas, que formam um topo no seu encontro, onde há uma cruz e é ladeado por duas torres. O frontão também possui alguns nichos, onde antes eram abrigadas estátuas de santos jesuítas que hoje estão perdidas.
As três portas de acesso ao primeiro piso do templo também são ornamentadas com volutas, enquanto os pilares são decorados com motivos maneiristas em alto-relevo, o que cria interessantes efeitos de luz e sombra.

Fachada da Igreja e Colégio Santo Alexandre, a igreja é frequentemente alugada para casamentos e outros eventos. Fonte: Mariana e Fabrício.

O interior da igreja é composto por nave única em forma de cruz latina, com quatro capelas de cada lado, além de uma sacristia, que se encontra ao lado da capela-mor. Essa sacristia, situada na lateral esquerda da nave é ornada com retábulo dourado, trabalhada a pintura no forro e apresenta grande arcaz do século XVIII. No coro está exposta a imaginária sacra, e se tem uma ampla visão da nave da Igreja. Próximo às tribunas as imagens de roca, utilizadas em procissões e fabricadas no século XIX, ganham destaque juntamente com anjos adoradores. Destacam-se também as obras em talha esculpidas por João Xavier Traer e os indígenas da sua oficina de arte. Dentre essas obras, destacam-se dois magníficos púlpitos, no estilo “Dom João V”, decorados com anjinhos inspirados na arte barroca austríaca, de onde se originou Traer. Destacam-se também os retábulos nas capelas laterais e capela mor. (Revista Salão Xumucuís de Arte Digital, 2010).

Hoje a Igreja está integrada ao Museu de Arte Sacra (MAS), fez parte de um projeto de revitalização do centro histórico de Belém, tanto a igreja quanto o colégio foram tombados pelo IPHAN, em 1941.
O edifício correspondente ao colégio possui loja, galeria de arte, biblioteca, além de áreas destinadas ao restauro de obras. O edifício da igreja é destinado a missas esporádicas, apresentação de concertos de música, teatro, casamentos, entre outros eventos, informações sobre a programação do museu e os horários de visitação também podem ser encontradas no site da Prefeitura de Belém.
O Museu foi inaugurado em 28 de setembro de 1998, possui mais de 400 peças em seu acervo, composto por peças sacras de pintura, talha, gesso e prataria. As coleções primeiramente foram compostas por peças provenientes da própria Igreja de Santo Alexandre, no entanto muitos desses objetos estavam perdidos, outros são provenientes de outras igrejas do estado do Pará, ou são advindos da grande coleção do médico paraense Abelardo Santos.

Interior da Igreja. Fonte: Ramiro Quaresma.

O Museu de Arte Sacra é parte integrante do Sistema Integrado de Museus e Memórias da SECULT/PA, e compartilha a equipe técnica (montagem, educativo, conservação e salvaguarda) com todos os museus do SIM. Ele possui a melhor galeria da cidade para exposições, a Galeria Findanza, é talvez um dos poucos museus sustentáveis aqui de Belém, pois além do grande fluxo de visitação, também aluga a igreja para casamentos e outros eventos. Existe um charmoso e confortável café em seu piso térreo, climatizado e com ótimos petiscos. Possui também um pequeno auditório para cerca de 40 lugares. (Folder do Museu). 

Segundo a Prefeitura de Belém, o projeto museológico partiu do estudo de três temas principais: o mapeamento histórico das Ordens religiosas presentes no Pará, enfocando algumas igrejas construídas em Belém; A Igreja de Santo Alexandre, sua articulação com o complexo do museu e com o contexto histórico e religioso; e a iconografia dos santos. O projeto foi desenvolvido por especialistas em diversas áreas, sempre atentos aos procedimentos de conservação preventiva adequada à realidade local. Devido ao clima quente e úmido, por exemplo, muitas peças se encontravam danificadas quando começou o processo de restauração da igreja e das obras que nela se encontravam, devido a ação de cupins. Os dois púlpitos localizados nas pareces laterais da nave da igreja expressam o ocorrido, em um deles pode-se observar perfeitamente as expressões faciais dos anjos e os detalhes florais esculpidos na peça, enquanto no púlpito da parede oposta tais detalhes já não são perceptíveis.
Uma das paredes da nave lateral da igreja possui os tijolos inteiramente a mostra, pois todo seu reboco caiu antes da restauração. Em uma das aberturas dessa parede, localizada na parte superior, foi colocada a imagem de um santo, cuja origem não foi identificada. Cria-se nesse espaço um magnífico efeito de luz e sombra, que da a igreja um cenário de cenas teatrais.
Durante o período em que estava abandonada, ocorreu o desabamento do telhado da igreja, optou-se, assim como em outras áreas da igreja, a restaurar apenas aquilo que ainda restava, e diferenciar ao máximo aquilo que foi acrescentado posteriormente. Sendo assim, a nova cobertura construída não imita as antigas pinturas, que ainda se encontram no forro da sacristia, mas foi construída em seu lugar uma cobertura lisa, perceptivelmente até para leigos de época diferente da parte original da igreja. O mesmo conceito se aplica as novas poltronas almofadadas que substituem os antigos bancos de madeira.
Tomou-se como partido para o processo de restauração da igreja a ideia de que tudo deveria ser mantido da maneira mais original possível, diversos acréscimos feitos ao edifício posteriores ao século XVIII foram retirados, optou-se por restaurar as obras e o edifício a partir da maneira como ele estava, evidenciando a diferença entre as partes originais e as que inevitavelmente deveriam ser acrescentadas. 
Nesse ponto abre-se espaço para discursão sobre qual partido se tomar quanto à forma de restauração de edifícios históricos. Há duas linhas de pensamentos que geralmente são seguidas, a primeira, que foi a aplicada na Igreja Santo Alexandre, diz que se deve reformar a partir do que ainda resta, o que for acrescentado posteriormente deve ser enfaticamente diferenciado, como principal argumento para esse conceito está a recusa a imitação. Já a segunda linha de pensamento, permite que não apenas se restaure oque permaneceu, mas que também se reconstrua oque foi destruído, pois o objetivo principal da aplicação deste conceito é que as sensações produzidas por esse edifício devem ser as mesmas transmitidas atualmente.
Para destacar as obras expostas no museu a iluminação ganhou destaque no projeto museógrafo ao primar pelo controle de incidência de luz sobre o acervo exposto. Luzes individuais foram aplicadas de forma focal e suave sobre as obras, de maneira que se confundem com a pouca luz natural que entra pelas aberturas do edifício.

Iluminação sobre as imagens em exposição. Fonte: Ramiro Quaresma.

Dentre as obras em talha, é interessante observar as diferenças entre as obras produzidas pelos indígenas e as obras trazidas do velho mundo. Observa-se que as imagens trazem características do povo e da cultura em que o artista está inserido. Enquanto nas obras europeias observam-se corpos mais esbeltos, com a musculatura destacada, extremidades arredondadas e curvas mais suaves, nas esculturas produzidas pelos indígenas são observadas características pertencentes a esse próprio povo, principalmente nos traços faciais, o tronco em maior proporção em relação ao resto do corpo, além de talhas menos suaves. O mesmo se percebe em outras obras do acervo, como na santa peruana, de cabelos negros e pele morena, ou na santa indiana, vestida com sari.
Essas obras não podem ser consideradas apenas ornamentos ou elementos de decoração, são registros de um período histórico do país e ajudam a formar a identidade e cultura do povo. Pode-se através das relíquias ocas se contarem a história do período de extração do ouro, do monopólio da coroa portuguesa, do contrabando de metais preciosos, do uso da mão-de-obra indígena, do trabalho dos padres jesuítas e do papel da Igreja Católica no período colonial. Aprende-se através dessas obras que não só os documentos escritos registram a história de um povo, mas a arquitetura e a arte produzida por ele ajudam a formar sua cultura e dar cores a sua identidade.
É importante ressaltar também o impacto urbano que o Museu representa. A restauração da Igreja e do Colégio de Santo Alexandre faz parte do projeto de revitalização do centro histórico de Belém.
No roteiro da viagem houve grande ênfase no projeto de requalificação urbana realizado em Belém. Pode-se observar a utilização da orla pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a reutilização de parte do espaço portuário, que se encontrava abandonado e onde hoje se encontra a Estação das Docas, um conhecido ponto de encontro na cidade, com bares, restaurantes, espaço de exposições, onde também ocorrem apresentações de música e dança.
As proximidades da Igreja Santo Alexandre já foi uma área degradada, mas atualmente se estabelece como forte zona de atrativo turístico e promoção cultural. Dentre os atrativos da localidade pode-se citar: o Mercado Ver-o-Peso, ponto de forte expressão da cultura regional, com barracas de produtos do artesanato local, iguarias e comidas típicas; o Forte do Presépio; A Casa das Onze Janelas, que abriga um espaço museológico, o Boteco das Onze (um dos mais qualificados restaurantes da cidade); e a Catedral Metropolitana de Belém, parte da tradicional celebração do Círio de Nazaré, restaurada ainda em 2005; entre outros atrativos.
Não só a restauração da Igreja e do Colégio de Santo Alexandre, mas os projetos de revitalização que evolvem todo o centro histórico de Belém chamaram a atenção para este trabalho, por serem exemplos da importância da manutenção da história de um lugar, é uma maneira de proporcionar cultura, sentimento de apropriação do espaço e despertar na população o orgulho do lugar em que vivem e de sua identidade. Isso ocorre principalmente através da manutenção de espaços públicos de qualidade e da requalificação de edifícios que fazem parte da história de um lugar, não apenas reformando-os, mas também os reavivando, em geral, através da promoção de atividades, de novos usos e funções. Deve-se enfatizar que tais conhecimentos são apreendidos de maneira mais eficaz pelo estudante de arquitetura quando este tem oportunidade de conhecer tais lugares, de vivenciar espaços que foram revitalizados, e presenciar a vida que existe em tais lugares e os pontos de sucesso de seus projetos.

*Estudante do Curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Tocantins. E-mail: loiseca@hotmail.com

Referências Bibliográficas:
FOLDER DO MUSEU DE ARTE SACRA – Entregue durante a viagem